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Renato (Renato de Burarama). Filho. Promotor cultural.  Autor do livro “A História do Caipira”- De Jeca Tatu aos Sem-terras.  

Ah, meu pai Izael, que alguns chamavam de "seu israel" e outros tantos chamavam de "Parente". Costumo falar para as crianças da nossa família, hoje cheia de super-heróis do cinema e internet, que meu pai tinha "super poder no olhar", que lançava raios fulminantes que nos faziam tremer quando fazíamos alguma coisa errada. Ai daquele que passasse no meio quando meu pai estivesse conversando com alguém, podia ficar o dia inteiro escondido que ele nos acordava na cama para a punição. Desse jeito ele criou onze filhos, que chegam hoje à quinta geração de seus descendentes.
Lembro de meu pai em Burarama, quando ele estava tentando tirar um cartucho engasgado na espingarda e ela disparou. Lembro dele, ferido no peito por um estilhaço, se levantando e tentando esconder o sangue da minha mãe, grávida, que desmaiou na cama. Acompanhei ele saindo de casa, passando pelo bar e pegando uma bicicleta que estava na frente e foi pedalando pros lados da farmácia do "cumpadre Jacintho Teixeira. Lembro da bicicleta balançando como se ele estivesse tonto e não conseguisse pedalar direito, até ser socorrido por um vizinho que o levou acho que numa rural. Lembro de eu correr atrás até a farmacia e ver numa janela o pai sentado numa cama e o "seu" Jacintho mexendo nele com algum instrumento. Por sorte não foi um ferimento grave, apesar de ter pegado pertinho do coração. Eu tinha meus 5,6 anos.
Lembro do dia que entrou um boi dentro do bar ficou lá deitado, amuado. Lembro deu brincar num monte de terra duma cisterna que ele estava cavando numa roça e ver um veado galheiro saindo da mata.
Lembro quando estava levando marmita pra ele ou algum irmão na roça, não sei se em Minas ou em Irapuru e pisei numa cobra, o que me fez sair correndo e gritando e espalhar a comida por toda parte.
De Irapuru, lembro de quando estava com "dordólho", com os dois olhos melecados e meio grudados e alguem gritou que pai estava chegando e eu fui rápido para o alpendre da casa e pisei forte descendo um degrau e com a batida meus olhos se abriram e vi ele chegando.
Lembro dele comprar sodinha no bar do Koga e bater um prego na tampinha, pra gente ir chupando feito mamadeira. Durava mais.
Lembro de ter ajudado ele na roça, que tinha arrendado, lembro do Tio Manoel junto pegando uma sacaria e quase sendo picado por uma jararaca, que ficou pendurada no saco com as presas enroscadas. Até hoje me lembro do ritual de bater amendoim, numa leira que ele me passou: levanta, sacode a terra e deita, levanta, sacode a terra e deita e assim por diante.
A gente quando é criança não percebe as dificuldades que nossos pais passaram. Hoje eu sei como ele pelejou para nos criar, principalmente quando mudamos para Prudente, ele trabalhando na Funada como caminhoneiro, depois como mascate, depois como taxista, enfim, tanta coisa que enfrentou para dar o melhor possível para nós.
Lembro de como ele gostava de jogar truco com meus irmãos, coisa que nunca quis aprender. Mas ele gostava muito dos churrascos que a gente fazia em familia, quando vinham filhos que moravam fora e os netos que tanto amava.
Herdei dele a alma de torcedor do Santos, que passou para outros filhos e netos.
Enfim, são tantas lembranças que espero compartilhar com meus irmãos nas próximas reuniões de familia, hoje tão escassas.
Nesses cem anos que meu pai faria, só podemos lhe agradecer e dizer o quanto a gente o amava, sendo que muitos não lhe falamos isso quando podíamos, talvez pela "concorrência" entre onze filhos que legou ao mundo.
Parabéns, meu pai. Parabéns, Izael Souza Silva, cem anos de nascimento, mas vivendo na eternidade, espero que bem pertinho de Deus.


 Hildebrando - Filho. 

Começando do zero

Em 1950, um casal, ela com 25 anos, ele com 30 anos, com um casal de filhos de 1 e 3 anos, decidem mudar da cidade para um área de 20 alqueires de mato, 60 km distante do médico mais próximo.

Sem nenhuma benfeitoria, obter água e abrigo era as prioridades mais prementes. Água era obtida num vizinho, 3km distante. Abrigo foi feito de pau-a-pique (barro batido) e chão de terra batida. O casal era meus pais, eu era a criança de 3 anos.

Assim se inicia um sonho movido pela esperança. Esperança de dias melhores, em uma época pós 2ª guerra mundial, tempo de homens determinados e destemidos. Minha lembrança mais antiga vejo minha mãe, minha irmã  de um ano engatinhando no quintal da nossa casa e eu. Em nossa volta, exceto por uma pequena área de plantação, era mata virgem.

Viver da terra é alimentar do que você planta, colhe, cria e caça. O tempo é medido pelo sol. O dia de trabalho inicia com os primeiros raios e termina ao anoitecer. Desde a mais simples das tarefas, como recolher os ovos das galinhas ou preparar alimentos, tudo envolvia trabalho, onde tudo era feito de forma primitiva, com o uso de ferramentas simples. Os recursos eram limitados ou mesmo inexistentes.

Um ano depois, agosto de 1951 chega mais um filho. Lembro do nascimento do meu irmão Rubens. Parto difícil e demorado, que além da parteira (parto feito em casa), a demora mobilizou algumas vizinhas. Lembro do alívio de todos quando o garoto nasceu. Ouvir os comentários de como era grande. Característica que persistiu quando adulto.

A cada ano era desmatado uma área de terra para plantação, e a área anteriormente plantada virava pasto para animais, basicamente gado e alguns cavalos. Porcos eram criados em duas áreas separadas: Para engorda, destinados à venda, e criação que ocupavam uma área maior. Galinhas eram criadas soltas, em volta da casa. Um pequeno curral nas proximidades da casa era parte da criação de gado, onde era obtido um dos principais alimentos: Leite e seus derivados queijo e manteiga.

Em 1952, uma proposta para cuidar de uma fazenda leva a família para uma localidade distante uns 15km, Canjão, onde já havia mais recursos, como trator e defensivos agrícolas (formicida). Lá em 1953 nasce uma filha, que falece de mal de 7 dias (Tétano neonatal).

Em 1954 nasce outro filho, Roberto, a quem como irmão mais velho, tinha a obrigação de ajudar cuidar. A vida continuava com sua rotina anual, plantar na primavera e colher no outono. Todos os dias do ano havia animais para cuidar, alimentar, e plantações para proteger e roçar (remover mato daninho).

O retorno ao “Pau preto”, propriedade inicial, se deu em 1955. Algumas melhorias foram feitas como reforma da casa, cisterna, novo curral e ampliada a criação de gado e atividades agrícolas. Em 1956 inicio minha vida escolar, em escola rural. No ano seguinte passo a morar de domingo a 5ª. Feira em Burarama, (hoje Capitão Enéas), em casa de amigo de meu pai, para continuar frequentando escola. Às 6as. Feiras após a escola retornava para o Pau preto. Ano seguinte, 1957, mudamos em definitivo para Burarama, para ter escola também para minha irmã Lia (Maria das Graças). Em novembro desse ano nasce meu irmão Renato.

A vida no campo deixou muitas lembranças. O leite fresco tomado encima da cerca do curral; trabalho nas plantações; montar em bezerros que eram presos a noite para que de manhã cedo houvesse leite nas vacas; e aventuras mil com pássaros e cavalos. Havia uma pequena represa próxima a nossa casa, que na época de seca (inverno) oferecia boas possibilidades de pesca.

Comentários

  1. Renato de Jesus Souza Silva, 5º filho:
    Ah, meu pai Izael, que alguns chamavam de "seu israel" e outros tantos chamavam de "Parente". Costumo falar para as crianças da nossa família, hoje cheia de super-heróis do cinema e internet, que meu pai tinha "super poder no olhar", que lançava raios fulminantes que nos faziam tremer quando fazíamos alguma coisa errada. Ai daquele que passasse no meio quando meu pai estivesse conversando com alguém, podia ficar o dia inteiro escondido que ele nos acordava na cama para a punição. Desse jeito ele criou onze filhos, que chegam hoje à quinta geração de seus descendentes.
    Lembro de meu pai em Burarama, quando ele estava tentando tirar um cartucho engasgado na espingarda e ela disparou. Lembro dele, ferido no peito por um estilhaço, se levantando e tentando esconder o sangue da minha mãe, grávida, que desmaiou na cama. Acompanhei ele saindo de casa, passando pelo bar e pegando uma bicicleta que estava na frente e foi pedalando pros lados da farmácia do "cumpadre Jacintho Teixeira. Lembro da bicicleta balançando como se ele estivesse tonto e não conseguisse pedalar direito, até ser socorrido por um vizinho que o levou acho que numa rural. Lembro de eu correr atrás até a farmacia e ver numa janela o pai sentado numa cama e o "seu" Jacintho mexendo nele com algum instrumento. Por sorte não foi um ferimento grave, apesar de ter pegado pertinho do coração. Eu tinha meus 5,6 anos.
    Lembro do dia que entrou um boi dentro do bar ficou lá deitado, amuado. Lembro deu brincar num monte de terra duma cisterna que ele estava cavando numa roça e ver um veado galheiro saindo da mata.
    Lembro quando estava levando marmita pra ele ou algum irmão na roça, não sei se em Minas ou em Irapuru e pisei numa cobra, o que me fez sair correndo e gritando e espalhar a comida por toda parte.
    De Irapuru, lembro de quando estava com "dordólho", com os dois olhos melecados e meio grudados e alguem gritou que pai estava chegando e eu fui rápido para o alpendre da casa e pisei forte descendo um degrau e com a batida meus olhos se abriram e vi ele chegando.
    Lembro dele comprar sodinha no bar do Koga e bater um prego na tampinha, pra gente ir chupando feito mamadeira. Durava mais.
    Lembro de ter ajudado ele na roça, que tinha arrendado, lembro do Tio Manoel junto pegando uma sacaria e quase sendo picado por uma jararaca, que ficou pendurada no saco com as presas enroscadas. Até hoje me lembro do ritual de bater amendoim, numa leira que ele me passou: levanta, sacode a terra e deita, levanta, sacode a terra e deita e assim por diante.
    A gente quando é criança não percebe as dificuldades que nossos pais passaram. Hoje eu sei como ele pelejou para nos criar, principalmente quando mudamos para Prudente, ele trabalhando na Funada como caminhoneiro, depois como mascate, depois como taxista, enfim, tanta coisa que enfrentou para dar o melhor possível para nós.
    Lembro de como ele gostava de jogar truco com meus irmãos, coisa que nunca quis aprender. Mas ele gostava muito dos churrascos que a gente fazia em familia, quando vinham filhos que moravam fora e os netos que tanto amava.
    Herdei dele a alma de torcedor do Santos, que passou para outros filhos e netos.
    Enfim, são tantas lembranças que espero compartilhar com meus irmãos nas próximas reuniões de familia, hoje tão escassas.
    Nesses cem anos que meu pai faria, só podemos lhe agradecer e dizer o quanto a gente o amava, sendo que muitos não lhe falamos isso quando podíamos, talvez pela "concorrência" entre onze filhos que legou ao mundo.
    Parabéns, meu pai. Parabéns, Izael Souza Silva, cem anos de nascimento, mas vivendo na eternidade, espero que bem pertinho de Deus.

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Nasceu em Macaúbas BA, iniciou família em Montes Claros MG e passou a maior parte de sua vida em Presidente Prudente SP, onde está sepultado ao lado da esposa e uma filha.